sábado, 16 de janeiro de 2010


rasga-me a pele, sentirei menos.
condensaste todos os sonhos, todos momentos, em nada mais que memórias, litros delas. soltam-se a pouco e pouco , evadem-se dos olhos sem pedido ou anúncio.
eu aqui, tu aí. os inevitáveis muros contruídos à pressão,sem limite, sempre mais e mais altos.
as mãos que outrora se entrelaçaram , soltam-se como que areia. e um grão de nós, no fundo de um mar de vidas continuadas que prosseguiram ao longo do tempo seguindo o seu curso, perdura. nunca imóvel, sempre levado na maré. instável e perdido, mas na sua integridade, ainda que pequeno, ainda que invisível a um « nós » do presente.
lá fora o tempo passa, o suceder das estações dá-se e embora o mundo seja o mesmo, podemos considerar o tempo imutável. cada tempo, cada segundo equivale a outro no passado, tal como hoje existe um « nós » sem história nem razão , diferente do « nós » passado, mas existente. quebrado a meio pela maré, pelos sucessivos embates que tornaram a erosão inevitável. mais ainda que a metade, em infinitos grãozinhos espalhados por aqui e por aí.
consigo respirá-los, não indo directos aos pulmões mas sim ao pensamento. e daí vêm os momentos de vislumbre de um passado que aparenta ser muito mais longínquo do que na realidade.
os chamados « momentos de fraqueza » em que tudo vai abaixo , os momentos aos quais ainda não tenho resposta nem travão. por isso aprendo aviver com eles , lado a lado, a respeitá-los embora que sempre e cada vez mais afectada pelos mesmos.
e sinto sempre, verdadeira e intensamente tudo quanto é teu, que já foi meu no passado. desde o teu cheiro à tua voz, guardo em mim tudo quanto te pertence agora, unicamente a ti. é a vida, a sua lei e do tempo.
tudo tão intenso, e é tudo tão errado. invadem e evadem as memórias, sinto tudo como nunca senti. intenso e arrebatador.
rasga-me a pele, tira de mim o teu cheiro. rasga tudo. só assim sentirei menos.