As coisas, todas as coisas no universo, desaparecem, certo?
Certíssimo. A importância que damos a um detalhe, hoje, será muito provavelmente nula daqui a uns tempos. E que nome damos a um amontoado de detalhes ? Alguém. Um nome. Uma pessoa. Sendo essa a regra, o passar do tempo arranca também de nós o amor sem prazos. A importância que damos a alguém hoje, também será nenhuma no futuro. A chave que entregamos a alguém, ser-lhe-á um dia retirada. E passamos também nós, assim, pela vida. Sempre completa, por mais auto-destrutiva que lhe chamemos, as lições com que nós presenteia são de incalculável valor, são essas sim, eternas até ao dia em que as esquecemos. Não porque se desvaneceram, mas sim porque decidimos não nos lembrar delas, e partir… mais uma vez.
É imperativo na vida que todos os amores caiam no esquecimento, um dia. É imperativo que as cordas que nos prendem a alguém se desgastem, e ainda que essas cordas sejam correntes, um dia elas quebram. E é pior, bem pior quando são correntes que nos prendem a alguém, em vez de cordas. Maior é a força necessária para as quebrar, mas também a dor em nós prevalece maior e por mais tempo.
Olho para mim e para estas cicatrizes, não de cordas, mas sim de correntes. Olho-as todos os dias. Sei que aqui permanecem para me lembrar diariamente “ não caias no mesmo erro de amar alguém assim outra vez”. Olho-as e no momento em que lhes toco sei que são setas que me atravessam o coração. Sei que a estupidez que vem envolta nestas lágrimas me sufoca e me faz sentir do tamanho mais desprezível. Mas por outro lado, no fundo de tudo é só isso que resta. Uma dor e uma lição. E fico contente pela existência dessa regra que apaga os amores, que desgasta a importância das pessoas na nossa vida. Fico contente pelo tempo e pelas ocasionalidades que te arrancaram de mim.
Quanto á mensagem que me é transmitida pelas cicatrizes, quando as olho, nada poderei fazer se não… ignorá-la. Nenhuma vida é vida sem amor, sem o desgosto, a emoção, a raiva, as lágrimas, o desespero…e o fim. Nada nos faz mais felizes que o sermos loucos e corrermos atrás de sonhos sem razão, de tropeçarmos e cairmos um em cima do outro, de olharmos nos olhos de alguém e saber, nesse momento, que lhe estamos a entregar tudo quanto é nosso. E nesse primeiro momento em que damos a mão a alguém, é-nos tapada a consciência de um fim, e que assim se manterá até ao desentrelaçar dessas mesmas mãos.
Tanta dor, tantos ciclos e recomeços. Se vale a pena? Sempre. E será nos nossos momentos finais que mais nos daremos conta disso. Que saberemos olhar para trás e avaliar que, no fundo, até fomos bem felizes.