quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Rascunho.

Para que escrever se o papel queima? Se o papel amarela com o tempo, fica aos tombos pela casa e o negro vira cinza e as letras desvanecem dia por dia, letra por letra?
Para que falar, para que ? Para que gastar palavras de que nem cinzas restarão?
Ganha-se muito em economizar lágrimas e perdões. Ganha-se ainda mais se pedirmos perdão a nós mesmos pelas inúmeras situações que provocámos e a que nos podíamos ter poupado. Perde-se tanto com quem nada vale, que chega a levar ao desespero qualquer um que decida pensar a sério nesse assunto.
Mais vale fugir antes de chegar ao limite, algo que nunca aprendemos. Muitas das vezes fugimos daquilo que devemos fugir mas esquecemo-nos de soltar a âncora, esquecemo-nos de não olhar para trás. O que cria uma sucessão de partidas falhadas, de desabafos completamente escusados, de um terror excedente de viver. O que nos leva exactamente a esse ponto, esse sim sem retorno – O limite.
Nessa altura a coragem momentânea eleva-se a um expoente infinito, fugimos, corremos, não olhamos para trás um único segundo. Sem espaço nem estofo para malas nem bagagens, partimos levando-nos apenas a nós próprios, deixando assim grande parte de nós espalhada por aí, em ruas e ruelas intermináveis.
Tarde chega essa paz, que acaba por chegar. Furacões viram sons entrelaçados de teclas de piano, calma quieta em sentido de inquietude que nada mais é do que pura felicidade.
E é nessa sensação incomparável de felicidade que percebemos que não é necessário estar-se triste para ter de se expressar sentimentos em papel. Que as folhas de tristeza amarelem! Essas jamais farão falta. Mas tempo investido em guardar e tratar folhas em que encriptamos mil sorrisos, nunca será tempo perdido. Mas sim tempo precioso, um acumular de momentos sem prazo de validade e não perecíveis porque em nós são eternos.

Fecha-se o piano. Fecha-se a porta. Volta-se aos lençóis, ao perfume nosso e de mil outras essências. Volta-se aos braços de quem se ama e volta-se a perder a cabeça, a alma e o sentido. Desta vez em prol  do que mais de valioso se possui.
Amo-te.