Hoje voltei aqui. Perdido o diário, voltei a encontra-lo
no meio da roupa, do tempo e da desarrumação. Perdida eu, voltei a encontrar-me
dentro de mim mesma. E é de estranhar que tenha estado aqui todo este tempo, é
de lamentar que tenha chegado ao ponto de não me reconhecer e de perder tudo
aquilo que me sustentou a vida toda. Dei demais de mim, deixei-me dominar
irresistivelmente por uma paixão completamente conturbada. Entreguei-me ao
vício e à culpa, causei danos a mim mesma ciente que seria merecedora da pena
mais pesada. Deixei que o meu coração e a minha cabeça se prendessem a uma importunação
perseverante, deixei que o amor se confundisse com obsessão e que a teimosia me
domasse completamente.
Mas hoje voltei aqui, não voltei?
Sinto-me a regressar a casa, grata por de
alguma forma a vida ter deixado de me privar de mim mesma.
Ao meu coração peço desculpa por não o saber
guardar do Mundo, por querer que bata mais do que aquilo que consegue. Peço
desculpa pelas correntes ingratas com que o prendo, o silêncio que lhe imponho
e o quanto o rebaixo.
Desta vez quero um piano e uma casa vazia.
Quero a minha guitarra num canto e quero música de fundo. Quero o teu abraço
mais do que qualquer coisa, quero saber que podes estar aqui sem que caiam
pontes e que hajam tempestades.
E quero um diário novo. Quero uma narração
exacta dos factos notáveis que tens imposto ao meu coração. Uma explicação para
o turbilhão incontrolável que tem virado as páginas todas dos meus livros.
E depois da intempérie que venha a calmaria da
maré vaza, que o meu coração tenha o merecido descanso. Que a casa vazia vire
cheia, que o tempo deixe de contar tanto. E que tudo tenha valido a pena.