No relógio batem as 3:00. No meu coração não há hora alguma.
Estava quase a largar os sentidos na almofada, os meus
pensamentos começavam a esvoaçar como sedas ao vento. O som vago de teclas de
piano invadiu-me o aconchego. Não me era desconhecido. Sei que de alguma forma
aquele conjunto de teclas batidas estava inveterado em mim, permanecera
subtilmente adormecido no meio da confusão que se instalara na minha cabeça.
Os meus pés arrastaram-me escadaria abaixo, enquanto que as
minhas mãos trémulas percorriam o corrimão, apertando-o por vezes para me
assegurar que me agarrava à realidade.
O espelho no fundo da imensidão de escadas despertou-me mais
uma vez. Não pela necessidade feminina de observar imperfeições ou reparar o
irreparável. Mas a atenção que aquela música me fez dar a mim mesma. Estou de
facto mudada, os anos e o tempo não me perdoaram.
O som é agora mais nítido, e o meu reflexo apenas foi capaz
de roubar a minha atenção alguns segundos. De novo os meus pés dançam sozinhos
em direcção a uma melodia que o meu coração diz lembrar-se.
Esboço um sorriso ao reconhecer as mãos pousadas nas teclas
e o perfume doce e intenso que veio pairar até aos meus sentidos. Aproximo-me
com a leveza que a minha alma impõe ao momento, notando a sintonia do meu
batimento cardíaco com as teclas. Cheguei. Meus pés gelados, colados ao chão de
mosaico estagnaram junto àquele piano. Minhas mãos, também elas frias como a
noite, estendidas ao longo do meu corpo,
levantaram-se para virar aquele rosto contra o meu. E acordei.
Sem melodia alguma, sem piano, apenas os mesmos pés e mãos
geladas, a noite escura como breu. No relógio batem na realidade as 6:00 e no
meu coração o tempo continua inerte. Levanto-me apenas para cobrir um feixe de
luz que atravessa a janela do meu quarto e pouco depois estou de volta aos
lençóis da minha cama. Poiso a cabeça na almofada e peço em mente a qualquer
anjo que passe por aqui perto para afastar os pesadelos do meu sono.
Sinto novamente os sentidos a abandonarem-me, tudo fica mais leve. A música
agora é diferente e deixaram de ser teclas batidas. Apenas notas a fugir dos
meus olhos e a deslizar pelo meu rosto.