domingo, 30 de novembro de 2008


chegou repentinamente, como visitante. senti-o como uma brisa a levantar-me docemente o cabelo. fechei os olhos e pude sentir o toque superficial no meu pescoço, o arrepio nas costas que me fez respirar fundo. não soube parar, não soube deixar de sair todos os dias pelo fim da tarde até à varanda da frente para sentir a brisa. aquela leveza, aquele conforto era tudo quanto precisava. e a brisa foi ficando mais forte. as folhas das árvores caiam levemente no chão, o arrepio era agora mais presente. e cresceu mais ainda. as folhas foram sendo arrancadas a pouco e pouco, o cabelo esvoaçava agora completamente, o arrepio era possuidor, a sensação arrebatadora. cada vez se tornava mais perigoso e quanto mais perigoso mais quis viver, mais dependente me tornei daquele furacão que cada vez me enrolava mais e mais nele, que a cada passo chegava com maior velocidade e me prendia totalmente, me imobilizava e nunca me deixava cair. fui arrancada de tudo, fui levada completamente no tornado de sensações, fui até ao fim do mundo que nunca havia conhecido. fiquei sem saber o caminho de volta e nunca mais me preocupei em procurá-lo. foi sendo cada vez mais fatal, mais real e mais meu. é hoje inatingível e intoleravelmente capaz de sobreviver a tudo. não quero nem sou capaz de sair daqui, de abandonar a vida desvairada que construi. não é o mundo real, não é a vida real, é demasiado perfeito para o ser. é o maior dos perigos, é como viver a morte todos os dias, mas imortalizar a vida a cada segundo. é uma loucura; é estar presa por vontade.

das vitórias guardo os prémios, das derrotas a experiência. constantemente uso a palavra "desisto", na prática, nunca o faço. luto por ouro, tanto como pelo vazio, luto pelo que quero, por um grão de areia, por um segundo de felicidade mesmo sabendo que amanhã essa felicidade pode não passar de uma recordação. mas luto sempre. está-me nas veias, corre-me no sangue esta vontade incontrolável de querer mais e mais, de precisar de mais a cada dia que passa, esta ganância quase que egoísta, o desejo de uma falsa perfeição, uma luta desesperada por algo que tarde ou nunca virei a encontrar. ensinaram-me um dia que para que se tenha a certeza que uma construção de uma ponte está bem edificada, há que verificar se ela abana em dias de vento. é quase que incompreensível. como pode algo tão robusto ser abalável por algo tão mínimo, tão imperceptível? mas é a verdade, a mais pura, que no fundo está na base de tudo. não é o facto de nunca chorar, de nunca nos deixarmos ir abaixo que faz de nós pessoas fortes. mas sim o facto de cairmos, de chegarmos ao fundo e de nos conseguirmos levantar. de recuperarmos, de chegarmos onde estávamos ou ainda mais além. eu luto, tropeço, e na maioria das vezes caio. mas levanto-me sempre, e de cada vez que me levanto chego mais e mais alto. nem o céu chega a ser limite.