chegou repentinamente, como visitante. senti-o como uma brisa a levantar-me docemente o cabelo. fechei os olhos e pude sentir o toque superficial no meu pescoço, o arrepio nas costas que me fez respirar fundo. não soube parar, não soube deixar de sair todos os dias pelo fim da tarde até à varanda da frente para sentir a brisa. aquela leveza, aquele conforto era tudo quanto precisava. e a brisa foi ficando mais forte. as folhas das árvores caiam levemente no chão, o arrepio era agora mais presente. e cresceu mais ainda. as folhas foram sendo arrancadas a pouco e pouco, o cabelo esvoaçava agora completamente, o arrepio era possuidor, a sensação arrebatadora. cada vez se tornava mais perigoso e quanto mais perigoso mais quis viver, mais dependente me tornei daquele furacão que cada vez me enrolava mais e mais nele, que a cada passo chegava com maior velocidade e me prendia totalmente, me imobilizava e nunca me deixava cair. fui arrancada de tudo, fui levada completamente no tornado de sensações, fui até ao fim do mundo que nunca havia conhecido. fiquei sem saber o caminho de volta e nunca mais me preocupei em procurá-lo. foi sendo cada vez mais fatal, mais real e mais meu. é hoje inatingível e intoleravelmente capaz de sobreviver a tudo. não quero nem sou capaz de sair daqui, de abandonar a vida desvairada que construi. não é o mundo real, não é a vida real, é demasiado perfeito para o ser. é o maior dos perigos, é como viver a morte todos os dias, mas imortalizar a vida a cada segundo. é uma loucura; é estar presa por vontade.