quinta-feira, 19 de novembro de 2009



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pega na arma, conta até três.
não dês o derradeiro passo atrás, não atrases o que pode ser uma eternidade por um segundo mal pensado.
não abrandes, deixa de desejar as coisas em câmara lenta em vista de adiar decisões.
as grandes e derradeiras acontecem. agora ou no amanhã mais presente ou intocável, elas chegam. por isso não tentes adiá-las. é a lei  do universo, entrelaça-a na teoria do caos.
pequenas causas, grandes efeitos. mas a lei do universo está aqui, mesmo à nossa volta. tudo o que tem de acontecer, acontece. e o universo acaba por reparar sempre o que tem de ser reparado. dispara, se é o que queres realmente. não é o facto de disparares que faz da tua vida um policial. a história pode ser real, e o sentimento pode serconstante. não há bala no mundo que destrua um romance, dos verdadeiros.
dispara. aperta o gatilho. dispara.
se o universo quiser parar o tempo ele para; congela.
a bala cai, e sem contares os teus dedos vão desentrelaçar-se. não vais ter força e a arma vai cair. tu mesma, dentro de ti vais cair, contigo uma lágrima que não contavas. e aí vais abraça-lo e dentro da tua mente agradecerás ao universo,  e escreverás entre mil paginas e folhas soltas em pensamento esse teu romance, esse teu policial de explosões sem fim, de manifestações demoníacas e impulsivas de afecto.
deixas de ser consumida por esse desejo interdito. deixas de usar suposições e do teu dicionário riscas a palavra “se”.
e por muito aterrorizada que estejas , segues, segues sempre.
se o universo quiser, a bala vai seguir a trajectoria projectada. e só abrirás os olhos atrás de vinte barras de ferro. e aí a lágrima soltar-se há, agora sem abraço. agora sem explosões.
e por muita tristeza ou vontade que tenhas de soltar as quinhentas lágrimas que contigo estão aprisionadas, sentes o arrependimento e consegues tocá-lo. é algo que podes saber além de prever. e na parede da cela, escreves a palavra “se”; riscas a palavra "se".
e vais contar o tempo passar , vais sentir as quatro estações a corroer-te cada milímetro do corpo. o tempo vai passar e em ti as alterações vão ser constantes. não saberás distinguir , sequer sentir. se o vento vem, o vento vai. gora sabes que a duração de um segundo nunca é mais do que um segundo, e desistes da ideia de viver em câmara lenta.
é provável, que anos mais tarde reescrevas a palavra “se”, agora sem a riscar. e saibas mesmo sem saber que nem a bala dá cabo do verdadeiro romance. nem a bala nem o tempo.
junto ao “se” estarão todas as suposições do mundo, a tua ideia de romance e policial, com todas as suas explosões.  vens a janela, e nas tuas mãos frias coladas aos ferros cai a ultima lágrima aprisionada. sem sentir ou querer dar conta , fitas o horizonte e gravas a ultima imagem dentro de ti. fechas os olhos, e sentes todos os anos que vives-te dentro da tua mente, a verdadeira cela. tu mesma cais , os sentidos fogem.
disparaste a bala e o destino disparou a sua na tua direcção.  o gatilho foi apertado, suspira o ultimo segundo. Já acabou.
Ponto, final.