Hoje senti a minha vida a fugir. Não tive a coragem de ir atrás, não tive.
Desejei nunca ter escrito o meu primeiro texto, a primeira linha. Desejei nunca ter sabido o que era o papel, o que era o amor. Desejei nunca ter saído das quatro paredes, da guitarra e dos meus livros. Desejei nunca ter conhecido o Mundo por fora, desejei nunca ter sido … livre.
Faço as malas, não tento voltar atrás, não tento pensar no que vai na tua cabeça.
Tenho saudades dos sonhos, da perfeição que colocava neles. E assim desejo, enquanto dobro a tua parte da fotografia para trás, nunca ter sido protagonista de nada. Convenço-me a mim mesma entra as lágrimas fugidias, que dava tudo para voltar a ser a parva sonhadora, a miúda que so tinha castelos e fadas dentro da cabeça.
O meu armário vai estar cheio de roupa outra vez, só da minha roupa. Sem espaço para mais nada nem ninguém.
E os livros vão estar espalhados, sempre pela casa. A guitarra vai perder o pó , e aquele canto vai voltar a ter-me la sentada. As músicas que fariam o meu coração acelerar, vão agora abranda-lo. Vou tapar as janelas, vou deixar de olhar lá para fora. Vou queimar todo o meu papel para não cair na tentação de o dobrar outra vez.
Vou parar de escrever, vou parar de sentir. Não quero amar, quero voltar para o meu mundo, recuperar o pouco que ainda há de mim espalhado por aqui.
Não vou mais andar por aí a voar num avião de papel, vou estar sempre com os pés na terra, sem querer voar, sem querer amar. Não quero viver a vida de mais ninguém, e a minha já esgotou. Por isso resta-me ficar aqui a tocar, a ler… a esperar que o tempo leva a parte física do que já não tem presença para continuar a viver.
Parabéns "vida", ou o que quer que sejas. Desta vez, ganhaste.