Lembro-me de viver contigo o meu pedaço de céu azul. Lembro-me de sentir que eras a única coisa que precisava na minha vida. Lembro-me de que por ti eu saltava o triplo de mim, para baixo de mim. Lembro-me de ti, de quem eras.
Nesse teu inicio fazias-me lembrar o meu primeiro amor, o segundo. Mas suponho que no final todos os amores acabem por ser iguais. Acabam sempre, desiludem-nos sempre. Mesmo se formos nós a quebrar a corrente, acabamos sempre por descobrir uma ponta de desilusão na outra pessoa.
Parece que inicialmente se encontra adormecida a nossa capacidade captadora de defeitos, tudo que nos digam, tudo o que parecemos não observar, esmorece contra o escudo. No final toda essa onda vem de uma vez, todos os defeitos se emaranham, todo aquele ser intocável desmaia. E o amor acaba.
Foi assim contigo, há-de ser muitas mais vezes.
Lembro-me de dizeres que o nosso amor era diferente.
Lembro-me da maneira incomparável que me fazias sorrir. No entanto em qualquer altura me lembro de ouvir de ti “ Sou eu quem mais vai marcar a tua vida. Sou eu quem vai arrancar de ti o coração e parti-lo em mil pedaços. Sou eu o fugitivo deste amor que em tempos corroía o tempo e o meu corpo por dentro, quando não estavas. Sou eu a pessoa que te perdeu e em quem mais te perdeste. Sou o labirinto para o qual nunca encontrarás saída, sou a flor no teu jardim que jamais brotará outra vez. Sou o sonho colapsado, sou o passado enterrado, as cinzas inúteis perdidas e largadas ao vento. Sou a maré vaza do teu mundo, momentos singulares repartidos por pedaços partidos de um espelho. Um reflexo destorcido, as ondas de uma pedra ao cair na água, quando desvanecem. Sou o fim da chuva, da tempestade. A calma típica de um final de tarde de Outono, a folha que cai, o pouco Sol que parte.”
Se tivesse recebido de ti uma carta assim, todas estas palavras, não seria a pateta que neste momento escreve sem saber ao certo o porque. Não seria eu quem teme o amor, não seria eu.
Porém hoje sou eu esse calmo fim de tarde. Entre guerra e paz, eu sou a paz. Aprendi a ser mãe de todo este sentimento, a saber adormece-lo e a acalmá-lo. Aprendi que ter medo também faz falta, que sorrir e chorar são duas margens de um rio onde nadaremos infindavelmente, até um dia.
Não sei se aprendi a viver melhor, mas com toda a certeza hoje compreendo melhor o conceito de vida, e acima de tudo, a minha vida. Sou eu quem passeia a noite, as luzes intermitentes nos letreiros, o som de ambulância como som de fundo. Dois gatos a correr, alguém que toca guitarra na berma da estrada. Sou eu que acordo neste cenário para o final de tarde inquieto, a correria, as pessoas que se movem e gritam para além do fim do mundo. Eu estou no meio, ninguém está parado, alguém chora. A calmaria acabara, não havia a singularidade irrepetível visível nesse final de tarde. O Tudo entrou em desordem, não há brisa nem banco solitário. No meio do dia, no meio da tarde, alguém grita: “ ele morreu.”