segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
Auto-Biografia?
Antevês, concentras e despertas. Os sentidos do mundo são arrastados a cada gota de chuva, precipitas a cada sentimento. Quase que te deténs e te arrastas para um qualquer lugar oco, um espaço fechado e desarrumado. Perdes os livros e cumprimentas o desatino com a breve serenidade que te abala por vezes. Não te compreendes nunca, ninguém ao certo te compreende. Cobres de negro e abafas o som a todo o batimento mais acelerado, corres da própria sombra com o medo incessante do que te possa trazer um sentimento qualquer, qualquer abalo ou precipício desconhecido. Sintetizando: temes o amor acima de qualquer outra coisa. O que não te impede de o viver, nem que por breves instantes, nem que num pensamento, numa passagem de um livro, dentro dos sonhos quase que construídos por guião.
A pouca luz que entra pela sala, quase sempre mal iluminada. A mesa completamente desconcertada, atolada de papéis, de memórias. A caneta que teima em não querer levantar-se do papel. És sempre assim quando escreves. A primeira frase demora séculos a chegar, as palavras parecem repelir-se num quase surrealismo ou gravura abstracta. Após essa primeira estância, mudas tu, muda o papel e mudas o sentido ao tempo, desenrolas o momento como quem abre cuidadosamente o envelope de uma carta que se quer muito guardar.
E apesar de todas as tentativas em congelar segundos, odeias o tempo. Odeias a brevidade das coisas, o sofrimento imbatível que a efemeridade traz, a sua capacidade completamente corrosiva em relação às melhores coisas do mundo.
Vives na dicotomia irreparável de amor/ódio. O ódio por qualquer sentimento que toque no amor, o amor por amar alguém, e ainda o ódio que sentes de ti mesma quando amas, pelo facto irreconhecível de não saberes nunca quem amas ou porque amas.
Acima das piores coisas está esse patamar quase nunca atingível, essa desconhecida razão que ultrapassa o próprio tempo, o rei de qualquer sentimento.
O homicida da razão, da racionalidade e do espírito crítico do mundo: o amor. O que tolda a visão, o arrebatador e leve desatino, o incompleto capítulo da história da vida. Recobre-nos e sopra batidas e sensações que se entrelaçam e acabam por se dissolver em algo que foge à capacidade da percepção humano. O melhor/pior sentimento alguma vez criado.
domingo, 5 de junho de 2011
Eu era feliz. Na verdadeira ascensão da palavra, no puro e único sentido da inocência, da ausência de lágrimas, a felicidade estava comigo. As minhas mãos não eram só minhas, e a minha história não era apenas narrada por mim. Pertencia a alguém que me pertencia, não havia um mundo só para mim, uma única porta trancada. É incrível o quanto o tempo muda as coisas, o quanto nos muda e quanto muda os nossos objectivos. Inúmeras foram as vezes em que pedi a solidão, em que pedi uma mente e um quarto vazio, um espaço somente meu. Uma liberdade intocável, um tempo única e exclusivamente meu. Os estranhos desabafos, os gritantes pedidos para que chegasse uma ausência prolongada de sentimentos. Chegou, ou talvez não.
Hoje especialmente sinto-me completamente vazia, vazia como se me tivessem arrancado qualquer coisa minha. Não tenho nada, sei que não tenho. Porque fui habituada a sorrir da maneira mais patética possível, a uma felicidade que parecia não ter fim. Hoje sem isso, sem o pedaço insubstituível, não sou eu. Não me sinto eu. Preferia as discussões completamente absurdas, preferia os erros reparáveis, a todo este vazio.
Aguardo para que o tempo emende a promessa quebrada de uma nunca ausência de alguém como tu. Aguardo para que o tempo trate de esvaziar o meu coração dos restos, que dele arranque os vidros partidos, os espelhos partidos em que o reflexo nunca era apenas eu. Aguardo para que um dia possa segurar em mão um coração completamente cicatrizado, para que o mundo veja que afinal eu fui capaz, para me convencer acima de tudo a mim mesma de que nunca deixei de ser forte. Não sei do que escrevo, ou até para que escrevo.
Apenas sei que nunca desejei tanto voltar atrás no tempo, apenas sei que temo não voltar a ser feliz, como fui um dia. Temo não amar alguém como já amei. Temo o dia em que o cérebro me começar a pregar partidas. Em que perguntarei mais que uma vez pelas minhas coisas, em que as memórias ficarão escassas. Como irei sobreviver sem as lembranças de que fui feliz, dessa história de amor tão arrebatadora como inoportuna? Não amo as pessoas dessa história antiga, não amo os protagonistas que dela fizeram parte, que a narraram. Apenas sinto falta da história em si, de a viver. Sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo, apaixonar-me pela pessoa errada seria estúpido sem dúvida, mas não a continuada insistência em algo que me destruiria, a patetice de acreditar nas coisas que nunca estavam lá.
Falta pouco, bem pouco para que me perca outra vez. Para que as caixas sejam cheias e para que leve as memórias para outro lado. Falta pouco para que não veja as pessoas que fizeram parte da história, diariamente. Mas e eu? Eu continuarei comigo, e comigo o pensamento constante de que tudo poderia ter sido diferente, o pensamento de que seria uma pessoa certamente muito mais feliz se tivesse ficado presa numa dessas histórias de amor irrepetíveis Muito mais feliz seria sem o impossível e patético sentimento que foi crescendo dentro de mim, sem eu mesma me dar por isso. Sem nunca o ter conhecido.
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