Antevês, concentras e despertas. Os sentidos do mundo são arrastados a cada gota de chuva, precipitas a cada sentimento. Quase que te deténs e te arrastas para um qualquer lugar oco, um espaço fechado e desarrumado. Perdes os livros e cumprimentas o desatino com a breve serenidade que te abala por vezes. Não te compreendes nunca, ninguém ao certo te compreende. Cobres de negro e abafas o som a todo o batimento mais acelerado, corres da própria sombra com o medo incessante do que te possa trazer um sentimento qualquer, qualquer abalo ou precipício desconhecido. Sintetizando: temes o amor acima de qualquer outra coisa. O que não te impede de o viver, nem que por breves instantes, nem que num pensamento, numa passagem de um livro, dentro dos sonhos quase que construídos por guião.
A pouca luz que entra pela sala, quase sempre mal iluminada. A mesa completamente desconcertada, atolada de papéis, de memórias. A caneta que teima em não querer levantar-se do papel. És sempre assim quando escreves. A primeira frase demora séculos a chegar, as palavras parecem repelir-se num quase surrealismo ou gravura abstracta. Após essa primeira estância, mudas tu, muda o papel e mudas o sentido ao tempo, desenrolas o momento como quem abre cuidadosamente o envelope de uma carta que se quer muito guardar.
E apesar de todas as tentativas em congelar segundos, odeias o tempo. Odeias a brevidade das coisas, o sofrimento imbatível que a efemeridade traz, a sua capacidade completamente corrosiva em relação às melhores coisas do mundo.
Vives na dicotomia irreparável de amor/ódio. O ódio por qualquer sentimento que toque no amor, o amor por amar alguém, e ainda o ódio que sentes de ti mesma quando amas, pelo facto irreconhecível de não saberes nunca quem amas ou porque amas.
Acima das piores coisas está esse patamar quase nunca atingível, essa desconhecida razão que ultrapassa o próprio tempo, o rei de qualquer sentimento.
O homicida da razão, da racionalidade e do espírito crítico do mundo: o amor. O que tolda a visão, o arrebatador e leve desatino, o incompleto capítulo da história da vida. Recobre-nos e sopra batidas e sensações que se entrelaçam e acabam por se dissolver em algo que foge à capacidade da percepção humano. O melhor/pior sentimento alguma vez criado.