domingo, 28 de agosto de 2011

de nihilo nihil.

Hoje perdi a caneta, perdi o papel. Escrevi directamente no coração. A ponta de metal cravada , dor pungente. Filtro as emoções pelo pensamento, como deveria ter sido desde o início e chego mesmo a temer-me quando percebo o quão ignorante é tudo o que por ele não passa. 
O coração não mede nem estima. Desgasta-se e desgasta-nos, corrói-nos, baralha o sótão e nunca o arruma. Na cabeça temos prateleiras e armários de memórias, mais ou menos incompletas, mas arrumadas, não nos perseguem nem nos abrandam.
Já no coração são centenas de estradas, de carros em contra-mão, um mundo sem lei e sem regra. Atropelamentos ensanguentados, letais como cartas rasgadas, abertas a punhal.
Deixei de anuir a mim mesma este estado catatónico, de falta de presença de racionalidade. 
Ganha-se muito com os passeios pela mente, pela falta de destino. O andar perdido nas ruas, o viver a noite e superar o frio acaba por nos libertar.
Deixei de esperar pelo comboio atrasado,  deixei de viver com a alma presa nos carris, a ser desfeita a cada viagem. Sou só eu, e sou completa por isso mesmo. Eu nesse tal porto seguro, não me abalo não me perco.  Sobrevivi à intempérie e à dolorosa tempestade, não perdi pedaços porque estou e sou inteira.
E mereço bem melhor.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

" re-viver "

domingo, 21 de agosto de 2011

crime (im)perfeito.

as mãos afogadas no teu sangue, caio ao chão e o mundo treme. levo as mãos ao rosto, meu e teu, as marcas viram cicatrizes, linhas e impressões de um sangue sem temperatura, sem vida. é o homicídio da minha vida, o medo sem medos. aquilo que temia juntou-se a mim, deixei de ter medos, deixei de sentir. não me custou matar-te, não parei para pensar um único segundo. foi trágico e decisivo, foi um arrepio que me percorreu o corpo e afundou em ti toda a força que me parecia restrita. e acabou.
já não posso sentir nada porque não há nada a que prender o meu barco, deixa-o ir por esses mares implacáveis, e que não volte. não quero ver essa costa temida nunca mais, essa imensidão de dúvidas, a areia que queima e incendeia, que me impede o passo.
já nem preciso de nada, vivo e deito-me num colchão de cinzas das tuas mil cartas e mil beijos, recordações de um cheiro que o tempo rouba agora. não és nada, agora.
és apenas um corpo sem cheiro, por enquanto. porque também o tempo te trará o cheiro de volta, desta vez o pútrido odor da derrota e do fim. sem esperas e sem arrependimentos, acabou e sinceramente, como te disse, nada me poderia aliviar mais que a tua morte.
não chega a ser felicidade nem sequer êxtase, só alívio, só a libertação destas correntes. a porta abriu-se finalmente, o pó levantou e eu deixei de ser tua embora nem te apercebesses que me tinhas. a felicidade vem apenas da coragem, desta que me invadiu. nunca pensei ser capaz de viver sem ti por perto, pelos vistos apenas vou conseguir viver agora que partiste, sendo a maior surpresa , eu mesma.