domingo, 28 de agosto de 2011

de nihilo nihil.

Hoje perdi a caneta, perdi o papel. Escrevi directamente no coração. A ponta de metal cravada , dor pungente. Filtro as emoções pelo pensamento, como deveria ter sido desde o início e chego mesmo a temer-me quando percebo o quão ignorante é tudo o que por ele não passa. 
O coração não mede nem estima. Desgasta-se e desgasta-nos, corrói-nos, baralha o sótão e nunca o arruma. Na cabeça temos prateleiras e armários de memórias, mais ou menos incompletas, mas arrumadas, não nos perseguem nem nos abrandam.
Já no coração são centenas de estradas, de carros em contra-mão, um mundo sem lei e sem regra. Atropelamentos ensanguentados, letais como cartas rasgadas, abertas a punhal.
Deixei de anuir a mim mesma este estado catatónico, de falta de presença de racionalidade. 
Ganha-se muito com os passeios pela mente, pela falta de destino. O andar perdido nas ruas, o viver a noite e superar o frio acaba por nos libertar.
Deixei de esperar pelo comboio atrasado,  deixei de viver com a alma presa nos carris, a ser desfeita a cada viagem. Sou só eu, e sou completa por isso mesmo. Eu nesse tal porto seguro, não me abalo não me perco.  Sobrevivi à intempérie e à dolorosa tempestade, não perdi pedaços porque estou e sou inteira.
E mereço bem melhor.