quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Dias Cinzentos

Há dias que, de facto, não são dias. Céus cinzentos e marés tempestuosas, que me partem as velas e me viram o barco. Nem as noites chegam a ser noites quando o dia acaba sem se perceber, quando a luz pela janela vai sendo escassa e em tom de fuga se vaza do nosso espaço.
Fico sem noção de quando acabou e o que começou depois, o que esteve e o que ficou por vir. E se os ventos aumentam, as janelas abrem violentamente e a tempestade entra também para dentro, para nós. Não há como detê-la ou prevê-la, não há um boletim meteorológico implícito para cada pessoa.  E quando um furacão chega, é sempre o mesmo estrago! Sempre de surpresa, parte-nos as coisas, destrói-nos a casa, deixa-nos sem nada excepto uma carga enorme de trabalho para poder refazer-se o que se perdeu.
Nem o Tempo, esse senhor, consegue reinar sobre o tempo. Os relógios criam batalhas entre si, e nós partimos para as batalhas com eles. Contra eles e muitas vezes a combater do mesmo lado, acabamos por nos sentir inúteis perante tanta grandiosidade, tal é a nossa incapacidade de o controlar, de o deter. Mas vem a tal tempestade e partem-se os ponteiros, voam os relógios, e voamos nós. E o “nada” passa a ser o nosso maior bem, e continuamos apenas com os bolsos cheios de esperança que esse nosso nada possa um dia ser o nosso “tudo”.
É por isso que eu odeio tempestades. E elas não devem gostar nada de mim. Escolhem sempre os meus melhores dia de Sol para chegar sem qualquer convite, com tal ganância e presunção; como se diz no Norte, “vai tudo à frente!”
Hoje o dia não poderia estar mais cinzento. Há tristezas criadas árvores, com raízes infindáveis presas à terra, e essas, infelizmente as tempestades não levam.
No meio de dias bons, há dias muito bons. E há dias muito bons que acabam por ser só mais um dia que no final só queremos esquecer.

Encontro-me num desses dias. No fundo só espero não me lembrar que este existiu, pelo menos a tempo da próxima tempestade. Entretanto vou para a garagem reparar as velas e colar pedaços de madeira. Já está tarde, já não há luz a entrar pela janela, e lá no fundo só vejo um mar imenso há espera de ser navegado.