Há dias que, de facto, não são dias. Céus cinzentos e marés
tempestuosas, que me partem as velas e me viram o barco. Nem as noites chegam a
ser noites quando o dia acaba sem se perceber, quando a luz pela janela vai
sendo escassa e em tom de fuga se vaza do nosso espaço.
Fico sem noção de quando acabou e o que começou depois, o
que esteve e o que ficou por vir. E se os ventos aumentam, as janelas abrem
violentamente e a tempestade entra também para dentro, para nós. Não há como
detê-la ou prevê-la, não há um boletim meteorológico implícito para cada
pessoa. E quando um furacão chega, é
sempre o mesmo estrago! Sempre de surpresa, parte-nos as coisas, destrói-nos a
casa, deixa-nos sem nada excepto uma carga enorme de trabalho para poder
refazer-se o que se perdeu.
Nem o Tempo, esse senhor, consegue reinar sobre o tempo. Os
relógios criam batalhas entre si, e nós partimos para as batalhas com eles.
Contra eles e muitas vezes a combater do mesmo lado, acabamos por nos sentir
inúteis perante tanta grandiosidade, tal é a nossa incapacidade de o controlar,
de o deter. Mas vem a tal tempestade e partem-se os ponteiros, voam os
relógios, e voamos nós. E o “nada” passa a ser o nosso maior bem, e continuamos
apenas com os bolsos cheios de esperança que esse nosso nada possa um dia ser o
nosso “tudo”.
É por isso que eu odeio tempestades. E elas não devem gostar
nada de mim. Escolhem sempre os meus melhores dia de Sol para chegar sem
qualquer convite, com tal ganância e presunção; como se diz no Norte, “vai tudo
à frente!”
Hoje o dia não poderia estar mais cinzento. Há tristezas
criadas árvores, com raízes infindáveis presas à terra, e essas, infelizmente
as tempestades não levam.
No meio de dias bons, há dias muito bons. E há dias muito
bons que acabam por ser só mais um dia que no final só queremos esquecer.
Encontro-me num desses dias. No fundo só espero não me
lembrar que este existiu, pelo menos a tempo da próxima tempestade. Entretanto
vou para a garagem reparar as velas e colar pedaços de madeira. Já está tarde,
já não há luz a entrar pela janela, e lá no fundo só vejo um mar imenso há
espera de ser navegado.