quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Há em mim.

Estou onde tu estás, onde te encontras todas as vezes que eu me encontro a mim mesma. Sou perdida e sou sem rumo, sou sem dúvida e com toda a certeza, inteira e de pedaços colados. Fui corajosa ao ponto de te entregar o caixote de papéis amontoados, os sarrabiscos todos que te fazem perceber-me.
Há nas mulheres que amam uma força que elas mesmo desconhecem, que o mundo não consome porque são como centenas e milhares de isqueiros ao alto, de rostos iluminados pela luz fraca e pálida do luar e da chama. São os inúmeros pontos brilhantes no céu, toda a imensidão que nos foge à compreensão.
Chamei-te no primeiro texto “porto seguro”. Não o és. E não o és porque hoje, como nos dias em que me deténs nos teus braços, eu sinto o medo, o horrível pensamento de que te poderei perder um dia. Mas fora isso, sim, sou segura e de pés bem acentes no mesma terra que pisas.
Há nas mulheres que amam, uma vontade de querer sempre mais. De querer o bem-estar dessa pessoa mais que o nosso. De pensar no que poderá acontecer e ao mesmo tempo debater-se consigo mesma para que não pense para além do que os seus olhos alcançam. Há toda a trabalheira mental de imaginar um casamento, filhos a correr pela casa. E há o pânico de ouvir um dia que o sentimento se esgotou.
O que eu sinto por ti, não esgota, nem se desgasta, nem me desgasta.
Há em mim o que mais ninguém sente. Contigo o meu coração bebeu pela primeira vez sentimentos sem prazos nem perguntas. Não preciso de me questionar acerca de nada, olhar-te nos olhos dá-me todas as respostas que preciso.
Há em mim tudo o que eu amo que tu ames, a vontade de te pedir para não ires embora, para ficares sempre por aqui.
Por isso, fica. Tudo isto é teu.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Janela.




De altura implacável, de beleza imutável. De frente para o mundo, o ser pequeno contempla aquilo que lhe parece um patamar inatingível: a perfeição agradável à vista e que cativa o espírito, a estranha e saudável riqueza de uma região de antepassados e raízes que tocam o ponto mais profundo da Terra.
Janela com vista para os sonhos, para um mundo dentro de outro. Ninguém entende o porquê, mas todos o perseguem, todos fazem fila em frente à casa, ao cómodo compartimento isolado e perdido no meio de elevadas árvores, no meio de nós todos, no centro de cada um de nós.
Cores, promessas, desabafos. As histórias que outrora foram presentes momentos entre estas paredes, estão hoje inscritas em cada pedra, resistentes a qualquer erosão ou corrosão lenta por acção do tempo. Amores vividos e esquecidos, despedidas e partidas. Risos e alegria, lágrimas e perdões. Que segredos escondem estas paredes? Não queremos saber e nunca saberemos. 
Na calmaria desta tarde, de frente para a janela dos sonhos, seremos hoje o que nunca fomos e o que nunca mais seremos. Somos a pessoa daquele momento, a pessoa para quem o mundo parou, a quem se rendeu. E também nós, completamente rendidos ao mistério deste céu, fixamo-nos no céu para além da janela. Parece-nos outro céu, completamente diferente. Como que conseguimos imaginar um final feliz, um final que entrelaça dedos com histórias passadas nesta edificação, um outro tempo num semelhar momento: único, singular e irrepetível.
Na nossa imaginação conhecemos protagonistas passados, a Maria que amou o “Manel”, o Manel que partiu e deixou a sua Maria, o amor da Maria e do Manel que nunca se perdeu, que ficou sempre aqui. Saberemos nós se o final foi feliz, ou não? Nunca. Mas aqui, de frente para a janela dos sonhos, nunca poderemos imaginar um final de tristeza. Apenas o Manel a voltar, com Maria a lançar-se nos seus braços: “ voltaste, meu amor!”
Casa de sonhos, janela para o paraíso. Paredes perdidas e escondidas, uma casa no meio desta região, mas que no entanto, parando em qualquer lugar do Mundo, poderemos encontrar: sempre dentro de nós.