sábado, 21 de junho de 2014

O último cigarro.



Deixei a minha vida gastar-se sozinha que nem cigarro esquecido e pousado no cinzeiro. Uma vida tem dois dias e eu gastei assim um deles, já sem cigarro nem ponta para matar, resta-me um cinzeiro imundo que apenas preciso de lavar.

Perdi a conta às vezes em que me esqueci do cigarro aceso, em que a visão de uma beata quase moribunda com um resto de fumo incomodativo me levou apenas a sacar do maço e acender mais um. Só que este já ardeu, e este maço não tem 20 cigarros, nem é uma daquelas edições especiais de 25. Tem dois e um já não passa de um filtro meio queimado e amarrotado no meio de cinzas. 
Se me levo na perdição de fumar este último, sei que nada garante que me esqueça também dele, e no fim do dia estou sem cigarros e sem vida, e a porcaria do cinzeiro nem sequer fica lavado. 
Secam-me os pulmões e definha-se o coração, por vícios diferentes se destroem, e os seus tecidos pretos e queimados apenas demarcam um luto de felicidade sem prazo ou fim determinado. 


Sei que se o acender agora jamais me restam forças para o consumir até ao fim, e no fim do dia estou apagada no chão enquanto o cigarro ainda me arde entre os dedos. A porcaria deste vício está a matar-me o coração, e não, não te estou a falar do tabaco agora. Mas do quão viciante se torna a estupidez que os humanos reclamam como "amor", que o gritam a sete ventos sem nunca o perceber e o problema é que no fundo da questão também este imundo sentimento não passa de um cigarro, de químicos bem mais perigosos e uma nicotina pútrida e fatal. Se fumar mata, amar não nos matará menos, a diferença está em que as pessoas que amamos não vêm com rótulos a alertar-nos para o real e verdadeiro perigo. E assim é que o ser humano vive e se apaixona pelo Mundo, coleccionando riscos e a gastar a vida mais rápido do que pode, não queremos saber se os nossos órgãos apodrecem, se as forças nos fogem, o que nos importa no fim do dia é que nos impusemos a uma catástrofe total, e acreditando que controlamos tudo acabamos por ser, de facto, o mais irracional de todos os seres. 

Hoje olho para o cinzeiro e vejo as beatas de 357 cigarros que me acalmaram a comoção aflitiva do espírito, a irreal satisfação que me iludiu ao ponto de me gastar mais do que aos cigarros que fui fumando. E em cada uma dessas beatas, está preso um dia de vida, um suspiro que dei e que perdi, para nunca mais.
Limpo o cinzeiro de vez, com a consciência de que até ao meu último dia de vida estarei com a merda de um cigarro numa mão, e este maldito isqueiro na outra. Sei que deste vício não me safo, não adianta a tonelada de mensagens nos inúmeros maços que já gastei. Mas amar, que nunca se apresentou com mensagens encriptadas e avisos do perigo letal que representa, é hoje um vício que para mim se manterá esquecido. Poderei morrer com dois pedaços de carvão no lugar dos pulmões, mas o pouco que me resta do meu coração, partirá tal e qual como se encontra hoje. 


Que se lixe a porcaria dos ensinamentos todos que nos são transmitidos, e as campanhas contra o cancro de pulmão. No dia em que houver campanhas contra os malefícios que amar traz verdadeiramente a alguém, acreditarei que no fundo não somos assim tão burros. Até lá, que se foda tudo, vou mas é lá baixo comprar um maço que este já se me acabou.