terça-feira, 17 de abril de 2012

the broken watch

Algo me diz que desta vez não vem ninguém. Algo me diz que hoje aquela porta não abre, que o abraço comparado à sopa quente dada de presente ao mendigo passageiro, não vem, não volta.
Algo me diz que a próxima vez que olhar para o relógio já ele terá dados duas voltas, já os pés me gelaram, já as lágrimas não correrão.
Deveria estar certo, mas não está.
Deveria ter sido completo, mas não foi.
Nunca devia ter começado um puzzle faltando-me peças, nunca deveria ter viajado com um coração em cacos na mochila. Esses pedaços são agora pedacinhos, e pedacinhos não se colam, só se perdem. Por este tempo já o relógio deu pelo menos mais uma volta, já me levanto a andar para a frente, a andar para trás. Vejo-me no reflexo tardio, vejo-me a desmoronar diante de mim.
É tão errado alguém sentir-se assim. É tão errado magoar-se assim alguém.
Irónico, não é? Os momentos em que mais sorri são agora pequenos pedaços de vidro que eu tento arrancar do meu coração fechando os olhos para calar a dor. São memórias que ardem no meu peito, trazendo fumo aos olhos, trazendo tempestades.
Pensei que este seria o livro certo, o capítulo certo. Mas nada é certo por estes lados. Todos andamos perdidos, e a maior parte de nós nem o sabe. Mas ninguém pode negar que tudo o que o Mundo tem de belo, tem de trágico. Que não há magia sem preço, sem sabor amargo relutante.
Três voltas, quatro voltas, cinco voltas e o raio do relógio não para.  Vozes distantes gritam-me o vazio, empurram-me e fazem-me seguir. Amasso a folha de papel, meto-a no bolso, sei que nunca a vou entregar. Sigo, por esse caminho, enquanto todo o Mundo está adormecido e consigo ouvir os batimentos cada vez mais ofegantes e ao mesmo tempo moribundos.
Volto à casa e à desarrumação, desta vez não há avião de papel onde eu possa partir. Só um monte de papéis amassados , tentativas falhadas de fazer aviões de papel. Ao amontoado junto o que trago no bolso. Uma lágrima, duas lágrimas.. E tantas voltas!
Arranco o relógio do pulso, não quero saber. Que se danem essas horas e essas voltas, por mim o Mundo para agora. Nem que seja por instantes.