sábado, 21 de junho de 2014

O último cigarro.



Deixei a minha vida gastar-se sozinha que nem cigarro esquecido e pousado no cinzeiro. Uma vida tem dois dias e eu gastei assim um deles, já sem cigarro nem ponta para matar, resta-me um cinzeiro imundo que apenas preciso de lavar.

Perdi a conta às vezes em que me esqueci do cigarro aceso, em que a visão de uma beata quase moribunda com um resto de fumo incomodativo me levou apenas a sacar do maço e acender mais um. Só que este já ardeu, e este maço não tem 20 cigarros, nem é uma daquelas edições especiais de 25. Tem dois e um já não passa de um filtro meio queimado e amarrotado no meio de cinzas. 
Se me levo na perdição de fumar este último, sei que nada garante que me esqueça também dele, e no fim do dia estou sem cigarros e sem vida, e a porcaria do cinzeiro nem sequer fica lavado. 
Secam-me os pulmões e definha-se o coração, por vícios diferentes se destroem, e os seus tecidos pretos e queimados apenas demarcam um luto de felicidade sem prazo ou fim determinado. 


Sei que se o acender agora jamais me restam forças para o consumir até ao fim, e no fim do dia estou apagada no chão enquanto o cigarro ainda me arde entre os dedos. A porcaria deste vício está a matar-me o coração, e não, não te estou a falar do tabaco agora. Mas do quão viciante se torna a estupidez que os humanos reclamam como "amor", que o gritam a sete ventos sem nunca o perceber e o problema é que no fundo da questão também este imundo sentimento não passa de um cigarro, de químicos bem mais perigosos e uma nicotina pútrida e fatal. Se fumar mata, amar não nos matará menos, a diferença está em que as pessoas que amamos não vêm com rótulos a alertar-nos para o real e verdadeiro perigo. E assim é que o ser humano vive e se apaixona pelo Mundo, coleccionando riscos e a gastar a vida mais rápido do que pode, não queremos saber se os nossos órgãos apodrecem, se as forças nos fogem, o que nos importa no fim do dia é que nos impusemos a uma catástrofe total, e acreditando que controlamos tudo acabamos por ser, de facto, o mais irracional de todos os seres. 

Hoje olho para o cinzeiro e vejo as beatas de 357 cigarros que me acalmaram a comoção aflitiva do espírito, a irreal satisfação que me iludiu ao ponto de me gastar mais do que aos cigarros que fui fumando. E em cada uma dessas beatas, está preso um dia de vida, um suspiro que dei e que perdi, para nunca mais.
Limpo o cinzeiro de vez, com a consciência de que até ao meu último dia de vida estarei com a merda de um cigarro numa mão, e este maldito isqueiro na outra. Sei que deste vício não me safo, não adianta a tonelada de mensagens nos inúmeros maços que já gastei. Mas amar, que nunca se apresentou com mensagens encriptadas e avisos do perigo letal que representa, é hoje um vício que para mim se manterá esquecido. Poderei morrer com dois pedaços de carvão no lugar dos pulmões, mas o pouco que me resta do meu coração, partirá tal e qual como se encontra hoje. 


Que se lixe a porcaria dos ensinamentos todos que nos são transmitidos, e as campanhas contra o cancro de pulmão. No dia em que houver campanhas contra os malefícios que amar traz verdadeiramente a alguém, acreditarei que no fundo não somos assim tão burros. Até lá, que se foda tudo, vou mas é lá baixo comprar um maço que este já se me acabou.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Dias Cinzentos

Há dias que, de facto, não são dias. Céus cinzentos e marés tempestuosas, que me partem as velas e me viram o barco. Nem as noites chegam a ser noites quando o dia acaba sem se perceber, quando a luz pela janela vai sendo escassa e em tom de fuga se vaza do nosso espaço.
Fico sem noção de quando acabou e o que começou depois, o que esteve e o que ficou por vir. E se os ventos aumentam, as janelas abrem violentamente e a tempestade entra também para dentro, para nós. Não há como detê-la ou prevê-la, não há um boletim meteorológico implícito para cada pessoa.  E quando um furacão chega, é sempre o mesmo estrago! Sempre de surpresa, parte-nos as coisas, destrói-nos a casa, deixa-nos sem nada excepto uma carga enorme de trabalho para poder refazer-se o que se perdeu.
Nem o Tempo, esse senhor, consegue reinar sobre o tempo. Os relógios criam batalhas entre si, e nós partimos para as batalhas com eles. Contra eles e muitas vezes a combater do mesmo lado, acabamos por nos sentir inúteis perante tanta grandiosidade, tal é a nossa incapacidade de o controlar, de o deter. Mas vem a tal tempestade e partem-se os ponteiros, voam os relógios, e voamos nós. E o “nada” passa a ser o nosso maior bem, e continuamos apenas com os bolsos cheios de esperança que esse nosso nada possa um dia ser o nosso “tudo”.
É por isso que eu odeio tempestades. E elas não devem gostar nada de mim. Escolhem sempre os meus melhores dia de Sol para chegar sem qualquer convite, com tal ganância e presunção; como se diz no Norte, “vai tudo à frente!”
Hoje o dia não poderia estar mais cinzento. Há tristezas criadas árvores, com raízes infindáveis presas à terra, e essas, infelizmente as tempestades não levam.
No meio de dias bons, há dias muito bons. E há dias muito bons que acabam por ser só mais um dia que no final só queremos esquecer.

Encontro-me num desses dias. No fundo só espero não me lembrar que este existiu, pelo menos a tempo da próxima tempestade. Entretanto vou para a garagem reparar as velas e colar pedaços de madeira. Já está tarde, já não há luz a entrar pela janela, e lá no fundo só vejo um mar imenso há espera de ser navegado.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"Cemitério de Pianos"


No relógio batem as 3:00. No meu coração não há hora alguma.
Estava quase a largar os sentidos na almofada, os meus pensamentos começavam a esvoaçar como sedas ao vento. O som vago de teclas de piano invadiu-me o aconchego. Não me era desconhecido. Sei que de alguma forma aquele conjunto de teclas batidas estava inveterado em mim, permanecera subtilmente adormecido no meio da confusão que se instalara na minha cabeça.
Os meus pés arrastaram-me escadaria abaixo, enquanto que as minhas mãos trémulas percorriam o corrimão, apertando-o por vezes para me assegurar que me agarrava à realidade.
O espelho no fundo da imensidão de escadas despertou-me mais uma vez. Não pela necessidade feminina de observar imperfeições ou reparar o irreparável. Mas a atenção que aquela música me fez dar a mim mesma. Estou de facto mudada, os anos e o tempo não me perdoaram.
O som é agora mais nítido, e o meu reflexo apenas foi capaz de roubar a minha atenção alguns segundos. De novo os meus pés dançam sozinhos em direcção a uma melodia que o meu coração diz lembrar-se.
Esboço um sorriso ao reconhecer as mãos pousadas nas teclas e o perfume doce e intenso que veio pairar até aos meus sentidos. Aproximo-me com a leveza que a minha alma impõe ao momento, notando a sintonia do meu batimento cardíaco com as teclas. Cheguei. Meus pés gelados, colados ao chão de mosaico estagnaram junto àquele piano. Minhas mãos, também elas frias como a noite,  estendidas ao longo do meu corpo, levantaram-se para virar aquele rosto contra o meu. E acordei.
Sem melodia alguma, sem piano, apenas os mesmos pés e mãos geladas, a noite escura como breu. No relógio batem na realidade as 6:00 e no meu coração o tempo continua inerte. Levanto-me apenas para cobrir um feixe de luz que atravessa a janela do meu quarto e pouco depois estou de volta aos lençóis da minha cama. Poiso a cabeça na almofada e peço em mente a qualquer anjo que passe por aqui perto para afastar os pesadelos do meu sono. 

Sinto novamente os sentidos a abandonarem-me, tudo fica mais leve. A música agora é diferente e deixaram de ser teclas batidas. Apenas notas a fugir dos meus olhos e a deslizar pelo meu rosto.

domingo, 24 de março de 2013


Hoje voltei aqui. Perdido o diário, voltei a encontra-lo no meio da roupa, do tempo e da desarrumação. Perdida eu, voltei a encontrar-me dentro de mim mesma. E é de estranhar que tenha estado aqui todo este tempo, é de lamentar que tenha chegado ao ponto de não me reconhecer e de perder tudo aquilo que me sustentou a vida toda. Dei demais de mim, deixei-me dominar irresistivelmente por uma paixão completamente conturbada. Entreguei-me ao vício e à culpa, causei danos a mim mesma ciente que seria merecedora da pena mais pesada. Deixei que o meu coração e a minha cabeça se prendessem a uma importunação perseverante, deixei que o amor se confundisse com obsessão e que a teimosia me domasse completamente.
Mas hoje voltei aqui, não voltei?
Sinto-me a regressar a casa, grata por de alguma forma a vida ter deixado de me privar de mim mesma.
Ao meu coração peço desculpa por não o saber guardar do Mundo, por querer que bata mais do que aquilo que consegue. Peço desculpa pelas correntes ingratas com que o prendo, o silêncio que lhe imponho e o quanto o rebaixo.
Desta vez quero um piano e uma casa vazia. Quero a minha guitarra num canto e quero música de fundo. Quero o teu abraço mais do que qualquer coisa, quero saber que podes estar aqui sem que caiam pontes e que hajam tempestades.
E quero um diário novo. Quero uma narração exacta dos factos notáveis que tens imposto ao meu coração. Uma explicação para o turbilhão incontrolável que tem virado as páginas todas dos meus livros.
E depois da intempérie que venha a calmaria da maré vaza, que o meu coração tenha o merecido descanso. Que a casa vazia vire cheia, que o tempo deixe de contar tanto. E que tudo tenha valido a pena.

domingo, 1 de julho de 2012

Confissão.

Não faz nenhum sentido, pois não? As voltas que a vida dá, os tombos que levamos, a irracionalidade que nos domina tantas vezes. Somos fantoches numa peça de teatro que alguém disse uma vez “ não permite ensaios”.
Somos o tudo e o nada, somos completos disparates e incompletas personagens de mil e um contos. E hoje? Hoje nem sei o que sou. A cada ano que passa sei menos de mim, sei menos de tudo. 

Tenho notado em mim que os relógios mudaram muito desde que me lembro de ver as horas pela primeira vez. Os relógios de hoje em dia parecem-me andar bem mais rápido, o tempo parece-me esgotar-se com a maior fluidez. Acabaram-se os momentos que idealizei eternizar, veio a escassez do tempo e de muitas outras coisas. Não consigo encontrar em mim caminhos viáveis nem estradas que me levem a bom porto. 

A bússola quebrou, o coração partiu. Não há mais Norte nem razão. Só o tempo, esse que continua a passar, sempre e cada vez mais depressa. Os anos eventualmente irão passar. Com esses mais umas centenas de lágrimas e sorrisos. Mais algumas partidas, e algumas chegadas muito bem vindas. Algumas festas, algumas desilusões. Funerais e casamentos. Casamentos? 

O tal dia. O dia que um dia vai chegar para mim também. O dia em que irei estar ao lado de alguém prometendo o impossível. Mas nem tudo são sonhos, e eu tive a minha dose de sonhos em todo o tempo que estive contigo. Agora vivo neste constante pesadelo, à espera do dia em que acorde, e que a varanda esteja aberta propositadamente para ouvir o mar. E nesse dia o tempo vai parar por um bocado, nem que seja a última vez.

terça-feira, 17 de abril de 2012

the broken watch

Algo me diz que desta vez não vem ninguém. Algo me diz que hoje aquela porta não abre, que o abraço comparado à sopa quente dada de presente ao mendigo passageiro, não vem, não volta.
Algo me diz que a próxima vez que olhar para o relógio já ele terá dados duas voltas, já os pés me gelaram, já as lágrimas não correrão.
Deveria estar certo, mas não está.
Deveria ter sido completo, mas não foi.
Nunca devia ter começado um puzzle faltando-me peças, nunca deveria ter viajado com um coração em cacos na mochila. Esses pedaços são agora pedacinhos, e pedacinhos não se colam, só se perdem. Por este tempo já o relógio deu pelo menos mais uma volta, já me levanto a andar para a frente, a andar para trás. Vejo-me no reflexo tardio, vejo-me a desmoronar diante de mim.
É tão errado alguém sentir-se assim. É tão errado magoar-se assim alguém.
Irónico, não é? Os momentos em que mais sorri são agora pequenos pedaços de vidro que eu tento arrancar do meu coração fechando os olhos para calar a dor. São memórias que ardem no meu peito, trazendo fumo aos olhos, trazendo tempestades.
Pensei que este seria o livro certo, o capítulo certo. Mas nada é certo por estes lados. Todos andamos perdidos, e a maior parte de nós nem o sabe. Mas ninguém pode negar que tudo o que o Mundo tem de belo, tem de trágico. Que não há magia sem preço, sem sabor amargo relutante.
Três voltas, quatro voltas, cinco voltas e o raio do relógio não para.  Vozes distantes gritam-me o vazio, empurram-me e fazem-me seguir. Amasso a folha de papel, meto-a no bolso, sei que nunca a vou entregar. Sigo, por esse caminho, enquanto todo o Mundo está adormecido e consigo ouvir os batimentos cada vez mais ofegantes e ao mesmo tempo moribundos.
Volto à casa e à desarrumação, desta vez não há avião de papel onde eu possa partir. Só um monte de papéis amassados , tentativas falhadas de fazer aviões de papel. Ao amontoado junto o que trago no bolso. Uma lágrima, duas lágrimas.. E tantas voltas!
Arranco o relógio do pulso, não quero saber. Que se danem essas horas e essas voltas, por mim o Mundo para agora. Nem que seja por instantes.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Era.

E era amar-te assim sem nada pedir, sem nada perder para devolver. Sem nada a dizer, com todo o encanto a pairar, soltos e vivos, poemas de amor pelo ar. Era assim. Seria tão justo voltar aos tempos de sorrisos jorrados, de abraços apertados e fins do dia sem fim. Entrelaçados nos lençois, sem noção do antes e depois, sem pedir contas ao tempo, sem qualquer intenção de rasgar o véu ao momento. A vontade de querer ficar, o desejo em persistir e quebrar o mundo para que ambos caissem na mesma vala. As mil velas acesas, a luz que nunca se apagava. O amor sem prazos, o amor sem enigmas. Seria a vida tão fácil de viver sem estes tempestuosos casos, sem todo este festival de sentimentos, muitas vezes negligenciados. Foram tempos de música e paixão, amor de lua e sol de verão, de beijos pacientes, olhos cheios de felicidade. Foram tempos que ensinaram ao tempo o sorriso esquecido, foram tempos de glória e de querer. Foram tempos em que eu perdida soube amar-te mais do que amei alguém e a mim própria, tempos que me ensinaram que jamais se deve amar assim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Rascunho.

Para que escrever se o papel queima? Se o papel amarela com o tempo, fica aos tombos pela casa e o negro vira cinza e as letras desvanecem dia por dia, letra por letra?
Para que falar, para que ? Para que gastar palavras de que nem cinzas restarão?
Ganha-se muito em economizar lágrimas e perdões. Ganha-se ainda mais se pedirmos perdão a nós mesmos pelas inúmeras situações que provocámos e a que nos podíamos ter poupado. Perde-se tanto com quem nada vale, que chega a levar ao desespero qualquer um que decida pensar a sério nesse assunto.
Mais vale fugir antes de chegar ao limite, algo que nunca aprendemos. Muitas das vezes fugimos daquilo que devemos fugir mas esquecemo-nos de soltar a âncora, esquecemo-nos de não olhar para trás. O que cria uma sucessão de partidas falhadas, de desabafos completamente escusados, de um terror excedente de viver. O que nos leva exactamente a esse ponto, esse sim sem retorno – O limite.
Nessa altura a coragem momentânea eleva-se a um expoente infinito, fugimos, corremos, não olhamos para trás um único segundo. Sem espaço nem estofo para malas nem bagagens, partimos levando-nos apenas a nós próprios, deixando assim grande parte de nós espalhada por aí, em ruas e ruelas intermináveis.
Tarde chega essa paz, que acaba por chegar. Furacões viram sons entrelaçados de teclas de piano, calma quieta em sentido de inquietude que nada mais é do que pura felicidade.
E é nessa sensação incomparável de felicidade que percebemos que não é necessário estar-se triste para ter de se expressar sentimentos em papel. Que as folhas de tristeza amarelem! Essas jamais farão falta. Mas tempo investido em guardar e tratar folhas em que encriptamos mil sorrisos, nunca será tempo perdido. Mas sim tempo precioso, um acumular de momentos sem prazo de validade e não perecíveis porque em nós são eternos.

Fecha-se o piano. Fecha-se a porta. Volta-se aos lençóis, ao perfume nosso e de mil outras essências. Volta-se aos braços de quem se ama e volta-se a perder a cabeça, a alma e o sentido. Desta vez em prol  do que mais de valioso se possui.
Amo-te.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Há em mim.

Estou onde tu estás, onde te encontras todas as vezes que eu me encontro a mim mesma. Sou perdida e sou sem rumo, sou sem dúvida e com toda a certeza, inteira e de pedaços colados. Fui corajosa ao ponto de te entregar o caixote de papéis amontoados, os sarrabiscos todos que te fazem perceber-me.
Há nas mulheres que amam uma força que elas mesmo desconhecem, que o mundo não consome porque são como centenas e milhares de isqueiros ao alto, de rostos iluminados pela luz fraca e pálida do luar e da chama. São os inúmeros pontos brilhantes no céu, toda a imensidão que nos foge à compreensão.
Chamei-te no primeiro texto “porto seguro”. Não o és. E não o és porque hoje, como nos dias em que me deténs nos teus braços, eu sinto o medo, o horrível pensamento de que te poderei perder um dia. Mas fora isso, sim, sou segura e de pés bem acentes no mesma terra que pisas.
Há nas mulheres que amam, uma vontade de querer sempre mais. De querer o bem-estar dessa pessoa mais que o nosso. De pensar no que poderá acontecer e ao mesmo tempo debater-se consigo mesma para que não pense para além do que os seus olhos alcançam. Há toda a trabalheira mental de imaginar um casamento, filhos a correr pela casa. E há o pânico de ouvir um dia que o sentimento se esgotou.
O que eu sinto por ti, não esgota, nem se desgasta, nem me desgasta.
Há em mim o que mais ninguém sente. Contigo o meu coração bebeu pela primeira vez sentimentos sem prazos nem perguntas. Não preciso de me questionar acerca de nada, olhar-te nos olhos dá-me todas as respostas que preciso.
Há em mim tudo o que eu amo que tu ames, a vontade de te pedir para não ires embora, para ficares sempre por aqui.
Por isso, fica. Tudo isto é teu.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Janela.




De altura implacável, de beleza imutável. De frente para o mundo, o ser pequeno contempla aquilo que lhe parece um patamar inatingível: a perfeição agradável à vista e que cativa o espírito, a estranha e saudável riqueza de uma região de antepassados e raízes que tocam o ponto mais profundo da Terra.
Janela com vista para os sonhos, para um mundo dentro de outro. Ninguém entende o porquê, mas todos o perseguem, todos fazem fila em frente à casa, ao cómodo compartimento isolado e perdido no meio de elevadas árvores, no meio de nós todos, no centro de cada um de nós.
Cores, promessas, desabafos. As histórias que outrora foram presentes momentos entre estas paredes, estão hoje inscritas em cada pedra, resistentes a qualquer erosão ou corrosão lenta por acção do tempo. Amores vividos e esquecidos, despedidas e partidas. Risos e alegria, lágrimas e perdões. Que segredos escondem estas paredes? Não queremos saber e nunca saberemos. 
Na calmaria desta tarde, de frente para a janela dos sonhos, seremos hoje o que nunca fomos e o que nunca mais seremos. Somos a pessoa daquele momento, a pessoa para quem o mundo parou, a quem se rendeu. E também nós, completamente rendidos ao mistério deste céu, fixamo-nos no céu para além da janela. Parece-nos outro céu, completamente diferente. Como que conseguimos imaginar um final feliz, um final que entrelaça dedos com histórias passadas nesta edificação, um outro tempo num semelhar momento: único, singular e irrepetível.
Na nossa imaginação conhecemos protagonistas passados, a Maria que amou o “Manel”, o Manel que partiu e deixou a sua Maria, o amor da Maria e do Manel que nunca se perdeu, que ficou sempre aqui. Saberemos nós se o final foi feliz, ou não? Nunca. Mas aqui, de frente para a janela dos sonhos, nunca poderemos imaginar um final de tristeza. Apenas o Manel a voltar, com Maria a lançar-se nos seus braços: “ voltaste, meu amor!”
Casa de sonhos, janela para o paraíso. Paredes perdidas e escondidas, uma casa no meio desta região, mas que no entanto, parando em qualquer lugar do Mundo, poderemos encontrar: sempre dentro de nós.

domingo, 11 de setembro de 2011

... e as correntes foram quebradas.

As coisas, todas as coisas no universo, desaparecem, certo?
Certíssimo. A importância que damos a um detalhe, hoje, será muito provavelmente nula daqui a uns tempos. E que nome damos a um amontoado de detalhes ? Alguém. Um nome. Uma pessoa. Sendo essa a regra, o passar do tempo arranca também de nós o amor sem prazos. A importância que damos a alguém hoje, também será nenhuma no futuro. A chave que entregamos a alguém, ser-lhe-á um dia retirada. E passamos também nós, assim, pela vida. Sempre completa, por mais auto-destrutiva que lhe chamemos, as lições com que nós presenteia são de incalculável valor, são essas sim, eternas até ao dia em que as esquecemos. Não porque se desvaneceram, mas sim porque decidimos não nos lembrar delas, e partir… mais uma vez.

É imperativo na vida que todos os amores caiam no esquecimento, um dia. É imperativo que as cordas que nos prendem a alguém se desgastem, e ainda que essas cordas sejam correntes, um dia elas quebram. E é pior, bem pior quando são correntes que nos prendem a alguém, em vez de cordas. Maior é a força necessária para as quebrar, mas também a dor em nós prevalece maior e por mais tempo.
Olho para mim e para estas cicatrizes, não de cordas, mas sim de correntes. Olho-as todos os dias. Sei que aqui permanecem para me lembrar diariamente “ não caias no mesmo erro de amar alguém assim outra vez”. Olho-as e no momento em que lhes toco sei que são setas que me atravessam o coração. Sei que a estupidez que vem envolta nestas lágrimas me sufoca e me faz sentir do tamanho mais desprezível. Mas por outro lado, no fundo de tudo é só isso que resta. Uma dor e uma lição. E fico contente pela existência dessa regra que apaga os amores, que desgasta a importância das pessoas na nossa vida. Fico contente pelo tempo e pelas ocasionalidades que te arrancaram de mim.

Quanto á mensagem que me é transmitida pelas cicatrizes, quando as olho, nada poderei fazer se não… ignorá-la. Nenhuma vida é vida sem amor, sem o desgosto, a emoção, a raiva, as lágrimas, o desespero…e o fim. Nada nos faz mais felizes que o sermos loucos e corrermos atrás de sonhos sem razão, de tropeçarmos e cairmos um em cima do outro, de olharmos nos olhos de alguém e saber, nesse momento, que lhe estamos a entregar tudo quanto é nosso. E nesse primeiro momento em que damos a mão a alguém, é-nos tapada a consciência de um fim, e que assim se manterá até ao desentrelaçar dessas mesmas mãos.
Tanta dor, tantos ciclos e recomeços. Se vale a pena? Sempre. E será nos nossos momentos finais que mais nos daremos conta disso. Que saberemos olhar para trás e avaliar que, no fundo, até fomos bem felizes.

domingo, 28 de agosto de 2011

de nihilo nihil.

Hoje perdi a caneta, perdi o papel. Escrevi directamente no coração. A ponta de metal cravada , dor pungente. Filtro as emoções pelo pensamento, como deveria ter sido desde o início e chego mesmo a temer-me quando percebo o quão ignorante é tudo o que por ele não passa. 
O coração não mede nem estima. Desgasta-se e desgasta-nos, corrói-nos, baralha o sótão e nunca o arruma. Na cabeça temos prateleiras e armários de memórias, mais ou menos incompletas, mas arrumadas, não nos perseguem nem nos abrandam.
Já no coração são centenas de estradas, de carros em contra-mão, um mundo sem lei e sem regra. Atropelamentos ensanguentados, letais como cartas rasgadas, abertas a punhal.
Deixei de anuir a mim mesma este estado catatónico, de falta de presença de racionalidade. 
Ganha-se muito com os passeios pela mente, pela falta de destino. O andar perdido nas ruas, o viver a noite e superar o frio acaba por nos libertar.
Deixei de esperar pelo comboio atrasado,  deixei de viver com a alma presa nos carris, a ser desfeita a cada viagem. Sou só eu, e sou completa por isso mesmo. Eu nesse tal porto seguro, não me abalo não me perco.  Sobrevivi à intempérie e à dolorosa tempestade, não perdi pedaços porque estou e sou inteira.
E mereço bem melhor.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

" re-viver "

domingo, 21 de agosto de 2011

crime (im)perfeito.

as mãos afogadas no teu sangue, caio ao chão e o mundo treme. levo as mãos ao rosto, meu e teu, as marcas viram cicatrizes, linhas e impressões de um sangue sem temperatura, sem vida. é o homicídio da minha vida, o medo sem medos. aquilo que temia juntou-se a mim, deixei de ter medos, deixei de sentir. não me custou matar-te, não parei para pensar um único segundo. foi trágico e decisivo, foi um arrepio que me percorreu o corpo e afundou em ti toda a força que me parecia restrita. e acabou.
já não posso sentir nada porque não há nada a que prender o meu barco, deixa-o ir por esses mares implacáveis, e que não volte. não quero ver essa costa temida nunca mais, essa imensidão de dúvidas, a areia que queima e incendeia, que me impede o passo.
já nem preciso de nada, vivo e deito-me num colchão de cinzas das tuas mil cartas e mil beijos, recordações de um cheiro que o tempo rouba agora. não és nada, agora.
és apenas um corpo sem cheiro, por enquanto. porque também o tempo te trará o cheiro de volta, desta vez o pútrido odor da derrota e do fim. sem esperas e sem arrependimentos, acabou e sinceramente, como te disse, nada me poderia aliviar mais que a tua morte.
não chega a ser felicidade nem sequer êxtase, só alívio, só a libertação destas correntes. a porta abriu-se finalmente, o pó levantou e eu deixei de ser tua embora nem te apercebesses que me tinhas. a felicidade vem apenas da coragem, desta que me invadiu. nunca pensei ser capaz de viver sem ti por perto, pelos vistos apenas vou conseguir viver agora que partiste, sendo a maior surpresa , eu mesma.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Dama de Copas

Pega nos dez mil esquemas que crias e mata sede à tua estúpida vontade incessante de controlar o que te foge, o que não guardas. Faz de conta que nunca foste em busca do que querias, que não assassinaste o que eras para agradar a alguém, que não mudaste de mundo por uma pessoa que não deu um único passo em direcção a ti.
Rasga os mil postais e as mil e umas cartas, os “querido diário” impregnados de um perfume que te asfixia as ideias e te sufoca. Parte sem a música repetida em descalabro na tua cabeça, não decidas o que o destino decidiu por ti. Morreu? Partiu? Sim. Não volta. Nunca.

Naturalmente jogador. Tens o natural dom de … perder ? O jogo na mão, confuso e precipitado. Estás vencido, completamente. Só estavas aqui pelo interesse de jogar, nada mais te interessava, pois não?                
Agora as cartas voaram para longe, uma perdida em cada canto, riscadas, rasgadas. Valete de espadas no chão. Dama : é a vencedora.

Fogo, tantas más notícias. É tudo uma merda, não é?

domingo, 3 de julho de 2011

" Pode o céu ser tão longe? "

Entreguei-me de novo aos livros catalogados e às notas da guitarra. O diário de bordo desta minha viagem tem transbordado emoções, tem feito com que das folhas soltas partam navios, que em cada palavra e em cada linha rebentem ondas altas em  apontamento divino como quem toca e arranca um pedaço do céu.
Afinal ainda sei descrever todas as viagens, sei de cor cada recanto e cada terra prometida. Sei partir nesse imenso azul e sei saborear o valor de voltar, a chegada aos braços que me apertam, sei reconhecer se esse é de facto o lugar certo. Se o sabor da partida se mostra inigualável, nunca terei palavras para falar desse ainda mais arrebatador que é o da chegada.
Para lá da infindável linha estão todos os sonhos que em mim habitam. Sou completa e sou maior no final de cada viagem. Não ficam os momentos, não só esses. Fica muito mais, fica cada ensinamento e cada obstáculo (contornado, sempre contornado). 
E conturbadas foram essas viagens para além da costa sombria, no lugar onde as ondas divinas viram negras, em que o demoníaco sentido de perda e de solidão nos vira a embarcação e o mundo. Somos convidados a essa marcha fúnebre, a esse despertar nefando para a verdadeira realidade. 

E eu? Ainda nessa embarcação soube chegar ao topo de mim. Soube ouvir o rádio meio quebrado no fundo do mar, soube içar as velas , soube partir.
E depois dessa partida veio esta doce chegada até ti, esta paragem e começo de uma navegação acertada em direcção a essa linha que anseio, a esses sonhos que quero atingir.
Encontrei o Norte, e tu? És muito mais que o meu porto seguro.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

oh stupid airplane, you finally crashed

terça-feira, 14 de junho de 2011

Auto-Biografia?

domingo, 5 de junho de 2011

Eu era feliz. Na verdadeira ascensão da palavra, no puro e único sentido da inocência, da ausência de lágrimas, a felicidade estava comigo. As minhas mãos não eram só minhas, e a minha história não era apenas narrada por mim. Pertencia a alguém que me pertencia, não havia um mundo só para mim, uma única porta trancada. É incrível o quanto o tempo muda as coisas, o quanto nos muda e quanto muda os nossos objectivos. Inúmeras foram as vezes em que pedi a solidão, em que pedi uma mente e um quarto vazio, um espaço somente meu. Uma liberdade intocável, um tempo única e exclusivamente meu. Os estranhos desabafos, os gritantes pedidos para que chegasse uma ausência prolongada de sentimentos. Chegou, ou talvez não.
Hoje especialmente sinto-me completamente vazia, vazia como se me tivessem arrancado qualquer coisa minha. Não tenho nada, sei que não tenho.  Porque fui habituada a sorrir da maneira mais patética possível, a uma felicidade que parecia não ter fim. Hoje sem isso, sem o pedaço insubstituível, não sou eu. Não me sinto eu. Preferia as discussões completamente absurdas, preferia os erros reparáveis, a todo este vazio.
Aguardo para que o tempo emende a promessa quebrada de uma nunca ausência de alguém como tu.  Aguardo para que o tempo trate de esvaziar o meu coração dos restos, que dele arranque os vidros partidos, os espelhos partidos em que o reflexo nunca era apenas eu. Aguardo para que um dia possa segurar em mão um coração completamente cicatrizado, para que o mundo veja que afinal eu fui capaz, para me convencer acima de tudo a mim mesma de que nunca deixei de ser forte. Não sei do que escrevo, ou até para que escrevo.
Apenas sei que nunca desejei  tanto voltar atrás no tempo, apenas sei que temo não voltar a ser feliz, como fui um dia. Temo não amar alguém como já amei. Temo o dia em que o cérebro me começar a pregar partidas. Em que perguntarei mais que uma vez pelas minhas coisas, em que as memórias ficarão escassas. Como irei sobreviver sem as lembranças de que fui feliz, dessa história de amor tão arrebatadora como inoportuna?  Não amo as pessoas dessa história antiga, não amo os protagonistas que dela fizeram parte, que a narraram. Apenas sinto falta da história em si, de a viver. Sinto-me a pessoa mais estúpida do mundo, apaixonar-me pela pessoa errada seria estúpido sem dúvida, mas não a continuada insistência em algo que me destruiria, a patetice de acreditar nas coisas que nunca estavam lá.
Falta pouco, bem pouco para que me perca outra vez. Para que as caixas sejam cheias e para que leve as memórias para outro lado. Falta pouco para que não veja as pessoas que fizeram parte da história, diariamente. Mas e eu? Eu continuarei comigo, e comigo o pensamento constante de que tudo poderia ter sido diferente, o pensamento de que seria uma pessoa certamente muito mais feliz se tivesse ficado presa numa dessas histórias de amor irrepetíveis Muito mais feliz seria sem o impossível e patético sentimento que foi crescendo dentro de mim, sem eu mesma me dar por isso. Sem nunca o ter conhecido.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"porque quem ama, tem medo de perder."

( escrevi esta semana um texto numa folha de papel, e perdi-a . aqui está uma espécie de reconstrução, mas com algumas modificações :] )

Não sei que raio de sentido tenho dado à minha vida. Estou e cheguei a um ponto em que não o percebo, não lhe encontro sentido. Metade dos caminhos que segui foram para fugir ao que não queria ver, que não poderia nem poderei ter.
Metade do que fui é algo que não sou, escondi-me e parti em algo que a ti me prende. Sou acorrentada para o fundo dos meus pensamentos e tudo à minha volta me leva a crer que metade da nossa vida, vivemo-la sem saber o caminho que estamos a percorrer, percebendo muito depois a importância de cada passo.
É nestes momentos, que também, cada passo que dei por esta estrada ecoam na minha mente, entrelaçam-se e pedem-me em gritos sufocantes para que os perceba, para que reflicta na importância que cada um teve para a tua chegada, para a tua partida.
Não percebo o que é que ainda me mantém em pé. Não percebo porque é que passei tanto tempo as escrever em coisas nas quais não acreditava. 
Percebo sim porque é que tantas pessoas temem o amor, percebo que afinal na balança pesam sempre mais os contras , do que os prós. Sinto-me como se no meu mundo a noite começasse os meus dias.
Sinto como se todas as memórias que tenho presentes, cada lugar, cada palavra, acabam por ser um fio condutor que me leva a ti, sempre. Mesmo aquelas que retomam o meu pensamento a tempos anteriores àquele que foi o marco temporal em que posso dizer ‘conheci-te’. O que quero dizer é que acabo por ligar-te a qualquer espaço, a qualquer momento. Cada milésimo de segundo ou fracção particular da minha vida se liga impreterivelmente a ti.
Gostava de poder dizer “ sou feliz”, que a cada dia a minha vida se torna mais completa, mas … não. Gostava de abraçar o tempo, de conseguir dizer que este só me trouxe coisas boas.
O tempo, ou o mundo, trouxeram bastantes coisas boas à minha vida de facto. Coisas quaisquer em que em cada página de identificação se encontrava a palavra “efemeridade”. As melhores coisas que tive na minha vida, acabei por perdê-las, o que me leva de facto a pensar se vale a pena a felicidade, visto que quanto maior esta se torna, maior será o vazio após, e mais difícil será de preencher. 
Gostava de poder colocar o medo e o vazio num envelope, enviar para uma morada sem remetente, para o fim,..de qualquer coisa.
Não há segundo que queira preencher, nem olhos que os meus queiram encontrar. Não há braços onde queira estar, sou barco que não quer em porto nenhum atracar. Não quero a Lua nem o Mundo, não quero nada. Quero o impossível e isso sei que nunca vou ter.

domingo, 13 de março de 2011

... e aqui está tudo.

Incapaz.
Sou incapaz de pensar em magoar-te. Incapaz de imaginar um mundo onde tu não estejas.
Incapaz de estar no mesmo sitio que tu sem olhar para ti, nem que seja uma única vez. Incapaz de me deitar uma única noite que seja sem que sejas a última imagem presente na minha mente acordada. Incapaz de rever a minha vida sem te rever a ti também.
Em tudo estás presente, em cada lição, em cada imagem, cada música, cada filme. Cada pedaço do meu tempo, cada segundo dos meus dias. Tudo se reflecte em ti.
Incapaz de não sorrir quando tu sorris. Incapaz de não chorar quando sei que nunca te vou ter.
Sou incapaz de lutar contra tudo o que o meu coração pede. Incapaz de o silenciar em todos os momentos em que grita o teu nome. Em que pede inadvertidamente a tua presença. Sou quase que incapaz de controlar os impulsos que tenho de correr para te abraçar. De acordar completamente dos sonhos em que nunca te largo e nunca me largas. O Mundo tem-me no mesmo sítio que tu. Vejo-te todos os dias, sinto-te quando não estás comigo. São poucos os momentos em que me sinto totalmente sozinha, pois a minha cabeça não imagina este mundo sem ti. Quando me sento, tu sentas-te ao meu lado, quando caminho a minha mão encontra a tua. Agradeço à minha imaginação por me fazer feliz nestes momentos em que te transporta para mim. Agradeço-lhe pelo sorriso pateta que me põe quando acordo de manha dos sonhos em que és meu. Agradeço a todas as pessoas que te trouxeram até mim. Agradeço ao tempo ter-me dado o tempo suficiente para que marcasses a minha vida desta maneira. Agradeço-te a ti porque apesar de tudo me fazes sentir viva. Sinto, os sentimentos corroem-me, deitam-me abaixo, e muito raramente sei ultrapassar a realidade e ver o aspecto positivo de amar alguém assim: sentimo-nos capazes de tudo.
Sei que vou chegar ao final dos meus dias e não vais saber tudo, e eu não saberei olhar para trás e arrepender-me. Sei que eventualmente um dia não terás este sentido em mim, serás mais uma pessoa. Não sei o que me assusta mais.. se é saber que nunca te vou ter, se é saber que um dia tudo o que sinto se vai apagar. Penso.. o que será de mim depois disto? Não verei as coisas da mesma maneira. A vida terá objectivos diferentes, porque todos esses foram alterados por ti. Sei que se um dia, daqui a muito tempo ler isto, bem como todos os meus textos, lembrar-me-ei de ti. Terei uma vontade incontrolável de te encontrar, de te dizer “ passou tanto tempo. Estás igual.”. e vou-te ver da mesma maneira. Os teus olhos iguais, não se alterarão. O significado e a tua voz serão similares. Seremos as mesmas pessoas , em lugares diferentes. E eu vou sentir o vazio de já não te amar, de nunca teres sabido de tudo.
Mas vou sentir que valeu a pena viver alguns capítulos da minha vida a teu lado, sei que nunca outra lição será tão importante para mim, sei que sou diferente e o meu caminho é hoje diferente devido a ti. E nessa altura agradecerei acima de tudo à minha vida, por me fazer sentir completa desta maneira.  Um dia parto, e chego lá. Caso-me, vivo, em frente. Provavelmente estarás lá, receberei um abraço teu, e o teu cheiro vai ser o mesmo. Vou ser a mesma miúda que abraçaste tantas vezes, os teus braços maiores, e eu não tão pequena. Vou ser feliz, irei aproveitar finalmente a felicidade que sempre sonhei vir a ter a teu lado. Espero ver-te muitas vezes depois disso, espero que neste sentido a vida te traga sempre perto de mim.  De uma ou outra maneira, tu fazes-me feliz. E eu sou feliz num qualquer sítio onde tu estejas por perto.
Por enquanto sou eu a gostar de ti desta maneira absurda. E tu perto de mim, a milhas de mim. E olho para ti, penso em tudo, no quanto as coisas mudaram e o quanto ainda mudarão. Penso que a minha vida seria totalmente diferente sem ti mas que certamente não seria melhor. Espero sinceramente nunca separar-me totalmente de ti, espero como esperei todo estes anos. Por Ti.